Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Alamo Oliveira: Coelho de Sousa - O homem e a obra

PADRE MANUEL COELHO DE SOUSA

– Poeta da mensagem social cristã

 

Tive o privilégio de conviver com o Padre Coelho de Sousa em momentos muito significativos da minha vida. Desde logo, como meu professor no Seminário de Angra, em duas disciplinas que me ajudaram a ganhar o pão: português e desenho. Despertou o que, porventura, seria o meu embrião de escrita criativa, bem como aquilo que vim a fazer a nível de artes plásticas. Desenvolveu também o meu «bicho» pelo teatro, chegando a defender a minha estreia absoluta, como dramaturgo e encenador, tinha eu dezasseis anos. A peça chamava-se A Arte de Pedir, e porque eu já andava a escrevinhar qualquer coisa que pretendia ficasse na área do absurdo e do «non-sense», a representação chocou os espetadores pelo «non-sense», mas não o meu professor Padre Coelho de Sousa.

Reencontrámo-nos anos mais tarde. Eu estava de tropa feita. O Padre Coelho de Sousa esteve na apresentação do livrinho Pão Verde (1971) e fomos partilhando momentos da nossa vida cultural que, até Abril de 1974, se foi desenvolvendo sob alguns subterfúgios – exigência necessária para que fosse possível fazer alguma coisa com a mensagem adequada. Até à instituição da autonomia houve como que uma pausa, já que os aspetos políticos prevaleceram sobre quaisquer outros. Com o primeiro governo regional, começou o arrumar da casa açoriana. O Padre Coelho de Sousa estava no jornal «A União»: apareceu o Alpendre, que ele acarinhou desde a primeira hora; reacendeu-se a actividade editorial, que noticiou e recenseou; valorizou-se a cultura popular (o folclore, as danças e bailinhos de Carnaval) que ele desenvolveu criando, opinando, encenando.

A multiplicidade dos talentos de Coelho de Sousa permitiu-lhe não só o exercício da animação cultural, como lhe proporcionou dar asas ao seu poder criativo, desenvolvendo o trabalho de grupo sob processos que levavam à compreensão de que as actividades culturais só se justificam se tiverem como finalidade a promoção sociocultural da comunidade.

Por ter, desde sempre, o entendimento de que é na Cultura que se colhem os ideais e o exercício da democracia, Coelho de Sousa esteve em todas: sacerdote-pregador do Evangelho e dos valores sociais que nele estão expressos, professor da Língua portuguesa e das artes, dramaturgo-encenador, poeta – a que juntou também a vertente popular –, membro ativo e preponderante em festas como as Sanjoaninas, jornalista, ideólogo-político, esteta até no vestir e homem de coração livre.

 

A poesia de Coelho de Sousa é essencialmente uma poesia de mensagem – de mensagem social cristã. Ele é de um tempo e de uma geração em que a poesia não podia ficar no formalmente correto. A geração de poetas a que pertenceu não ignorava os tempos difíceis que se viviam, social e politicamente falando, para mais quando o poder nacional exigia que os membros ativos da Igreja portuguesa fossem apologistas das políticas do Estado. Obviamente, na sua condição de sacerdote, Coelho de Sousa não cedeu a este tipo de pressões, aproveitando o seu estatuto de eclesiástico para afrontar o poder. Ele fez isso na qualidade de jornalista e de poeta e, curiosamente, servindo-se de uma ideologia eminentemente religiosa. Aliás, o longo poema sobre S. João Batista está sob a epígrafe «Não se calar... pode ser uma das exigências da condição cristã.»

A estruturação deste livro, que tem por título Testamento Poético e que é da responsabilidade de Dionísio Sousa, obedeceu a critérios temáticos e inicia com poemas que Coelho de Sousa gostava de escrever, desenvolvendo uma escrita de sabor popular, focando aspectos sociais, englobando usos e costumes, vivências marcadas pela ruralidade açoriana, as festas populares e um dos temas mais destacados na altura: a emigração. Sobre este tema, há um poema esplêndido, com o título «A resposta...». São 46 quadras sob a toada de carta, de filha emigrada dirigida aos pais, em estilo popular, onde é anunciada uma visita à terra natal, com destaque para a festa da chegada e as ofertas para regalar parentes e amigos. Coelho de Sousa conheceu muito bem os dois lados da emigração açoriana e, por isso, a carta, sendo, em si mesma, documento de cariz antropológico, constitui ainda um repositório da mentalidade que subsistiu até há poucos anos atrás: as notícias, os desejos, as saudades.

A formação literária de Coelho de Sousa passou pelos estudos que fez quer no Seminário de Angra quer na Universidade de Salamanca. Sendo poeta, tinha preferencialmente um gosto pela poesia, lendo-a muito, sobretudo a dos poetas portugueses. Tinha um gosto particular pelos poetas pós-românticos e simbolistas, embora sentisse pelos clássicos um respeito deveras afetivo. Camões, Bocage (o soneto era, para ele, uma composição de eleição. Neste livro, estão inseridos sonetos seus formalmente escorreitos), marcavam presença nas suas aulas. A Marquesa de Alorna também, mais Florbela Espanca (que admirava sem reservas), Antero e outros tidos de segunda linha, como Gonçalves Crespo, Camilo Pessanha, Cesário Verde. Os modernistas colheram também a sua admiração: Fernando Pessoa e Mário Sá Carneiro entre outros, incluindo os açorianos Vitorino Nemésio (que tinha acabado de revelar o, por ele designado, maior simbolista português, também açoriano – Roberto de Mesquita) e Armando Cortes-Rodrigues.

Homem culto, conhecedor das literaturas europeias, com uma formação humanista luminosa, não admira que Coelho de Sousa tenha oferecido uma poesia de mensagem preclara, orientadora dos grandes princípios humanos e sociais e escrita com modernidade estilística. No entanto, houve regras poéticas de que nunca abdicou, mesmo quando se socorria do verso livre. A rima foi sempre cumprida e a métrica também sempre que preferia modalidades clássicas, como a quadra e o soneto.

É interessante verificar que é no livro Poemas d’Aquém e Além (1955) que Coelho de Sousa mais se revela como poeta da  modernidade. O momento da publicação deste livro foi de oportunidade cultural, havendo, então, a partir do professorado do Seminário de Angra, o desenvolvimento de um movimento ideológico e artístico que enraizou na fundação do Instituto Açoriano de Cultura. Sentia-se que a sociedade açoriana anquilosara culturalmente, sendo necessário e urgente fazer Alguma coisa que informasse o que eram as novíssimas correntes artísticas e literárias, mais as tendências evolutivas do Pensamento e, sobretudo, procurar que, sem esforço anti-natura, essas correntes e tendências ajudassem a sociedade açoriana a chegar e a assumir a contemporaneidade. Para concretizar este trabalho de actualização sociocultural contribuíram as designadas «Semanas de Estudo». Coelho de Sousa integrou a equipa que liderou este movimento.

Em 1979, ele fez publicar Três de Espadas. Volta a preferir a quadra, mas, agora, agrupando-as em conjuntos de três e cada conjunto versando um tema específico. Apesar de se estar perante uma das formas poéticas mais antigas e populares, Coelho de Sousa, neste livro, refresca-as através de uma escrita linear, valorizando as capacidades estilísticas da modalidade, sem subterfúgios nem «rodriguinhos» para facilitar a rima. Na verdade, há neste conjunto de poesias, uma inspiração fluente, um saber expositivo, um domínio verbal e formal, que despertam uma grande vontade de leitura. Foi escolhida ao acaso esta «Irmã Esperança»: Quando vieres, não venhas/ De surpresa. Traz-me flores,/ Rosas daquelas que tenhas/ Com mais espinhos e dores,// Madressilva perfumada/ E um girassol muito grande./ E se não trouxeres nada/ Para aviso que me encante,// Vem devagarinho e mansa/ Com um sorriso no rosto./ Vem de tarde, Irmã Esperança!/ Vem à hora do sol-posto!

A estruturação destas três quadras mostra o quanto Coelho de Sousa dominava a formalização poética, jogando, como quem brinca, com a desestruturalização, partindo e repartindo os versos com a pontuação natural das frases prosaicas e sem prejudicar o ritmo e a métrica.

Naturalmente, a poesia de Coelho necessita de ser convenientemente estudada e necessita, acima de tudo, de ser lida, assimilada, meditada. É um esforço que se pede aos sebastianenses: leiam e divulguem a poesia do vosso poeta. Façam com que ele volte a ser conhecido nos Açores, em Portugal continental, nas comunidades açorianas dos países da emigração, através da sua poesia. Têm em Testamento Poético um belo presente de Natal.

E porque já é mesmo Natal, termino com os dois tercetos do «Quarto Soneto» de Coelho de Sousa: Natal mais uma vez, deixá-lo vivo./ Estrela que me guias a luzir,/ Ao meu deserto vem, estou aqui.// E dá-me que o encontre já presente/ E faze que o beije piamente/ A vida é d’Ele, e nossa... É para ti.

 

Raminho, Natal de 2013

publicado por DSousa às 12:22
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1 comentário:
De Onésimo Teotónio Almeida a 26 de Dezembro de 2013 às 15:43
O Álamo disse praticamente tudo e fê-lo exemplarmente, como ele sabe fazer com facilidade. Praticamente nada ficou atrás.Tudo o mais que se disser não passará de corolários e notas de rodapé.
Obrigado, Álamo.

onésimo

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