Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

"Coelho de Sousa": O Homem que não cabia dentro do Padre (Fim)

poemasaquem(capa)2 271x360.jpg


Anos mais tarde,o próprio poeta Coelho de Sousa, já liberto de muitos dos espartilhos que a sua condição de sacerdote impunha à sua arte, e sobretudo à sua liberdade poética, viria a dizê-lo claramente no poema de fecho do livro Três de Espadas:


Estrangulada nos lábios,


A palavra já morreu .


Fica a ideia para os sábios


Se o cadáver não sou eu...(…)


 


Não venham bater-me à porta


 A pedir palavra dita!


Que a palavra já está morta


E nunca mais ressuscita...!


Felizmente que as palavras do Pe.Coelho de Sousa nunca chegaram a morrer.


E mesmo aquelas que, como acontece com o seu primeiro livro, agora reeditado, se referem a um mundo que já não é bem aquele em que vivemos, continuam vivas.


Porque o P.e. Coelho de Sousa — escritor, poeta e orador sacro — sempre relacionou a palavra — seja a palavra do Homem ou a palavra de Deus através da palavra do poeta e do orador — com o fluir da vida.


Para ele, como se vê na sua poesia, nas suas crónicas, nos seus sermões, nas suas meditações espirituais, a palavra era a vida, e não poderia haver uma dimensão da vida que não pudesse ser descrita através da palavra poética.


E eu nunca esqueci uma história a que assisti, andava eu pelos meus 10-11 anos, entre um grupo de senhoras aqui de São Sebastião que tinham acompanhado o seu pároco — o P.e Coelho de Sousa — à procissão dos Biscoitos.


Pouco antes de a procissão ter início, começara a chuviscar; e, na sacristia da igreja nova, uma das senhoras disse ao P.e Coelho que tinha sede, que precisava de beber água.


E então o P.e Coelho, com aquela sua pose elegante e também um pouco teatral, que o caracterizava, virou-se para as senhoras e, de braços abertos, disse-lhes:


 Ide, minhas pombas, Ide até lá fora e abri o bico para o céu: A água de Deus vos matará a sede…


E eu, na candura da idade, logo imaginei um grupo de devotas senhoras a correr pela rua fora, de boca aberta voltada para o céu, a matar a sede com a água da chuva...


Acho que foi esta a primeira vez, tirando as cantorias ao desafio dos nossos cantadores populares, como o Charrua ou a Turlú, que tive consciência de assistir à Poesia ao vivo.


E isso, quarenta anos depois, devo-o ao P.e Coelho de Sousa, personalidade ao mesmo tempo fascinante e difícil de entender, com quem eu nunca tive o prazer da intimidade nem, sequer, de conversar.


Mas, pelo menos, tenho os livros que ele nos deixou, onde encontro as palavras adequadas, e que nunca morreram, para, a cada momento, perceber um pouco melhor aquilo que é a Vida. E as pessoas…"


(Manuel Luís Fagundes Duarte, Coelho de Sousa: O Homem que não cabia dentro do Padre, Diário Insular, 20/10/2005)

publicado por DSousa às 14:14
linque da entrada | comentar | favorito

Coelho de Sousa: O Homem que não cabia dentro do Padre (III)

poemasaquem(capa)2 271x360.jpg


Mas o ser sacerdote — apesar de poeta — impõe limites à liberdade do Homem, mesmo entre os outros seres humanos.


E o Pe. Coelho de Sousa soube muito bem dar conta, sem nunca ferir directamente os cânones de comportamento definidos para os sacerdotes católicos, do drama que é, sendo homem, não poder sê-lo na totalidade.


O amor a que um sacerdote tem direito é um amor condicionado, porque reduzido à dimensão espiritual, o que contraria a condição humana — que é espírito, mas também é corpo.


E poucos sacerdotes terão expressado tão bem, como o fez o P.e Coelho, o drama de quem, sendo homem por inteiro — no corpo e na alma — fica incompleto naquilo que diz respeito ao amor, matéria em que terá que se ficar apenas pelo espiritual.


Embora não o diga claramente (porque não o podia fazer), Coelho de Sousa — o poeta — reflecte assim sobre a condição de Coelho de Sousa — o sacerdote — que não pode assumir o Amor por inteiro:


Não venhas nunca, não,


Fica- te além na tarde semi-morta


Como um lamento doce de maré na praia ardente.


Não venhas nunca, não.


Pois se tu vieres,


Hás-de juncar meus passos de saudades rubras.


Fica-te ao longe abraçando a opala


Dos horizontes.


Não venhas nunca, não.


 Pois se tu vieres,


Secam-se as fontes do coração


 De quem te espera,


Sem querer que venhas.


E ficará sem fala


Um manso olhar que te venera


Sem jamais te ver.


 Não venhas nunca, não, sorte encantada.


[pp. 29-30]


Que outra coisa poderá ser esta “sorte encantada”  que não o Amor?


Não apenas o Amor de Deus, mas todo o Amor, o Amor que, para o bem e para o mal, enquadra toda a vida do ser humano — e para cujo festim o sacerdote não é convidado a tempo inteiro.


Se o amor humano chegar  ao coração de um sacerdote, mesmo poeta, ele não o poderá fruir por inteiro, e isso fará com que se lhe sequem”as fontes do coração”.


Obrigado a escolher entre a dimensão  humana do sacerdote e a dimensão sacerdotal do homem, o sacerdote-poeta tem que  exortar o amor a que não lhe bata à porta, pois em vez de felicidade e completude só lhe traria dor e, o que é pior, o sentimento de ser incompleto:


”Pois se tu vieres,


Hás-de juncar meus passos de saudades rubras”.


E o poeta, que antes de ser sacerdote é homem, “ficará sem fala”.


Só que um poeta que perde a fala é um poeta incompleto.


E é, sobretudo, um poeta morto.

publicado por DSousa às 12:55
linque da entrada | comentar | favorito

Coelho de Sousa: O Homem que não Cabia Dentro do Padre (II)

[Error: Irreparable invalid markup ('<a [...] <p>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

<P><a href="http://photos1.blogger.com/img/99/2608/320/csousaproc1166x360a1.jpg" rel="noopener"><IMG style="BORDER-RIGHT: #660066 1px solid; BORDER-TOP: #660066 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #660066 1px solid; BORDER-BOTTOM: #660066 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/99/2608/320/csousaproc1166x360a1.jpg" border=0></A> </P><a <p="&lt;P" rel="noopener">O livro agora reeditado,sendo uma obra de juventude — porque reúne poemas escritos por volta dos anos de 1953-1954, quando o Pe. Coelho era um jovem sacerdote —, é muito interessante, mais do ponto de vista do seu conteúdo do que da qualidade poética. </P>
<P>Neste livro, o jovem sacerdote utiliza a poesia como um meio para fazer chegar aos outros, e também a ele próprio, os valores fundamentais da doutrina cristã, o que fica exemplificado no pequeno poema com que encerra o livro: </P>
<P><EM>Eu creio, </EM></P>
<P><EM>Adoro, </EM></P>
<P><EM>Espero Aquém e Além. </EM></P>
<P>[p. 56] </P>
<P>Neste poema, temos o drama do homem terreno que se sente parte da obra divina: tem fé, adora a Deus, e tem esperança na vida que há-de vir - o Além - mas sem esquecer que, como homem, dotado de corpo e sujeito às circunstâncias da vida na Terra, também tem que ter esperança — por outras palavras, confiança — na vida de todos os dias — o Aquém. </P>
<P>Esta é uma característica da poesia do Pe.Coelho: homem de fé, homem da igreja, ele foi também um homem do seu tempo, da sua terra, das pessoas com quem, e sobretudo para quem, viveu. </P>
<P>E todos aqueles que o conheceram sabem a que dimensão humana do P.e. Coelho eu me refiro: a dimensão do homem da Igreja que não abdica da sua dimensão de Homem, nem do seu direito a participar na intimidade de Deus, porque o Homem, com todos os seus defeitos e qualidades, começou por ser criado por Deus à imagem de Si próprio: </P>
<P><EM>Deus! </EM></P>
<P><EM>Aquele que é por ser quem é, somente </EM></P>
<P><EM>Igual a si e a mais ninguém </EM></P>
<P><EM>Mas que hei-de ver, gozar eternamente. </EM></P>
<P>[p. 55] </P>
<P>O Homem — sacerdote, mas homem - que é Coelho de Sousa não desiste do seu direito de “ver, gozar eternamente” a Deus, com uma razão de peso que ninguém poderá contestar: o ser humano, cada um de nós, afinal, é uma criatura, urna obra, desse mesmo Deus. </P>
<P>Esta característica da obra poética do Pe. Coelho de Sousa — o drama de ser Homem e não querer abdicar do convívio de Deus — ficou muito bem explicada no pequeno mas brilhante prefácio que o Prof. José Enes escreveu para este livro,e que agora é de novo editado.</P>
<P>(cont) </P>
publicado por DSousa às 11:20
linque da entrada | comentar | favorito
Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005

Coelho de Sousa: O Homem que não Cabia Dentro do Padre (I)


(Texto do Professor Doutor Manuel Luís Fagundes Duarte, utilizado na sessão comemorativa do 10º aniversário da morte (2/9/1995) e 81 anos do nascimento (30/9/1924) do P.e Coelho de Sousa, e publicado no Diário Insular de 20/10/2005)


 


Muito se escreveu sobre a pessoa e a obra do Pe.Coelho de Sousa — o Padre Coelho - como era por todos conhecido—,e muito haverá ainda para se escrever sobre este homem multifacetado que nasceu na Vila de São Sebastião no dia 30 de Setembro de 1924, que ali viveu grande parte da sua vida, e que ali produziu uma obra literária e de oratória sacra de grande valia, e que enriquece e enche de orgulho a cultura açoriana.


 E valerá a pena recordar,mesmo de passagem,o que sobre este poeta e orador escreveram personalidades como Dionísio Sousa, José Enes, José Lúcio Sampaio, Júlio da Rosa, Esaú Dinis, Caetano Valadão Serpa, Artur Goulart, Valdemar Mota, Álamo Oliveira ou Eduardo Ferraz da Rosa — pessoas ilustres que o conheceram, que com ele conviveram, que estudaram a sua obra, e que sobre tudo isto já deram notícia.


A propósito desta efeméride do Pe. Coelho, foi preparada e lançada uma segunda edição do seu primeiro livro de poesia, Poemas de Aquém e Além, publicado há exactamente cinquenta anos e há muito esgotado, e que agora fica à disposição dos leitores em geral.


Por esta iniciativa de Dionísio de Sousa e da Junta de Freguesia de São Sebastião, estou eu, e deveremos estar todos, muito reconhecidos.


 Se, como escreveu o Pe. Júlio da Rosa, num texto de homenagem ao nosso poeta publicado em 2001 nas páginas do Diário Insular, “O Pe. Coelho não pode morrer”, a única maneira de não se deixar morrer um poeta é editar-lhe e publicar-lhe a obra.


E depois promover a sua leitura, o seu conhecimento e o seu estudo.


Nesta matéria, a Junta de Freguesia de São Sebastião deu um precioso contributo patrocinando a reedição dos Poemas de Aquém e Além.


Esperamos agora que os professores de Português das nossas escolas adoptem, nas suas aulas, os poemas (e outros textos) do Padre Coelho de Sousa.


O que terá uma dupla utilidade: mostrar aos nossos jovens como se fala e escreve bem a língua portuguesa — e podemos dizer que o Pe. Coelho foi um mestre na arte de utilizar a nossa língua — e como a poesia pode ser um grande meio para as pessoas exprimirem aquilo que sentem e a visão que têm do mundo, das pessoas, das coisas e dos sentimentos.


De facto, o Pe. Coelho foi mestre nestas duas artes: enquanto escritor, foi um grande cultor da língua portuguesa; e enquanto poeta, foi um fino intérprete da aventura humana.


(cont.)

publicado por DSousa às 15:34
linque da entrada | comentar | favorito
Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005

"Migalhas":O lugar de Maria

Evangellzar é instaurar a salvação integral em Cristo Jesus. Salvação que abrange a pessoa inteira, O corpo e a alma, o espírito. Cristo não veio salvar só as almas. Mas a pessoa toda. A Ressurreição final, por Ele e com Ele, é isto mesmo.
E embora cada um e cada coisa no seu lugar, e na naquele e como o Evangelho nos indica, e a Igreja, no Concilio Vaticano II bem declarou, Maria está totalmente unida a esta salvação evangélica. Ela foi quem primeira usou e gosou, vivendo e dando a vida humana ao Verbo da Boa-Nova.
Sendo assim é preciso libertar-se a nossa devoção à Virgem lipertadora, de muitas crendices e superstições feias e Infieis.
Não queiramos que a nossa Mãe, por sê-lo melhor que todas, possa transigir com vinganças e malquerenças, com disparates e desgraças que às vezes queremos que ela proteja ou ajude.
Deus é maravilhoso. E tudo, o que Ele fez e faz por nós, é maravilhoso tampém. Assim Maria. Assim a nossa alma baptizada. Assim a Comunhão em graça. Assim a família em Paz. A sociedade em Paz.
publicado por DSousa às 13:24
linque da entrada | comentar | favorito

"Migalhas": A melhor Oração

O salmo 139 diz assim: Ainda a palavra não me chegou à língua e já a conheces plenamente, Senhor, O profeta Isafas afirmou: Acontecerá, então, que antes tle me invocarem já eu lhes terei respondido.
Pois é: Ele sabe tudo. Até lê o que está no fundo dos nossos corções, E é tão preciso e justo que sabe a conta das folhas que caem e não deixa sem recompensa um copo de água em seu nome.
Muitas vezes mais que uma oração rezada com fórmulas pré-estabelecidas, o diálogo simples da nossa humildade que desabafa, natural e abertamente sem rodeios ritualistas ou tradicionais, será atendido por Deus. Através de Cristo e de Maria, tudo nos dará, conforme for melhor para nós e para os nossos irmãos,
publicado por DSousa às 13:23
linque da entrada | comentar | favorito

"Migalhas": Perdoar e ser Perdoado

ParmigianinoFanciullo.jpg


 No Pai-Nosso rezamos perdoai-nos, Senhor, assim como nós perdoamos.


 À primeira vista o perdão divino está condicionado ao nosso perdão humano.


 E é assim.


Muitas vezes a gente não consegue o que pede a Deus, porque Ele condiciona o seu benefício à nossa atitude de perdão.


Nós queremos que Ele nos perdoe, mas não queremos perdoar, para não perdermos a nossa posição ou a nossa razão.


E às vezes não temos razão nenhuma.


Superabunda-nos a vaidade e a soberba não só para pedir como até para dar o perdão


Ora imaginemos que Cristo e Nossa Senhora, nos pagavam com a mesma moeda?


Cuidado, não se pode abusar da Misericórdia de Deus.


Com Deus não se brinca.


Nem com Cristo.


Embora, às vezes, o Senhor Jesus se deixe tocar com as brincadeiras das crianças inocentes e até com o humor de certos santos alegres e felizes.


 O perdão custou a vida a Cristo.


E as dores mais tremendas a Nossa Senhora, e nós não queremos sofrer nada por dar ou receber o perdão.

publicado por DSousa às 12:22
linque da entrada | comentar | favorito

.

.

.Pesquisar neste blogue

 

.Novembro 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
26
27
28
29
30

.Últimas Entradas

. Seis horas antes

. SOBRE A BREVIDADE DA VID...

. Horas antes

. Da cor do gira-sol

. ...

. Logo

. Como a luz...

. Alamo Oliveira: Coelho de...

. O testemunho de Álamo Oli...

. Sacerdote

.Arquivos

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Junho 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

.Tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds